Enterrados no Jardim

Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho
undefined
Apr 4, 2026 • 3h 49min

Crónica dos pássaros dissecados em pleno voo. Outra conversa com Margarida David Cardoso

O meu demónio quer saber onde está o divã. Quer deitar-se nele e dar início ao disparate que tivemos de interromper da última vez. De qualquer modo ficamos sempre a meio. É impossível chegar a algum lado com estes rodeios delirantes em que nos pomos a escavar tudo o que há. Já se esqueceu de como se pôs a escarafunchar aquele pedaço de mobília, a imitação de couro, e agora estamos aqui os dois e temos de nos encarar. Há zonas do tecto que já denotam o abuso das infiltrações. É difícil um tipo abstrair-se sem sentir que os pensamentos o vão empurrando para aquela sensação de fractura, de que algo no interior parece ameaçado, está a ruir. Antes de conseguirmos interpretar fosse o que fosse, eram ruídos, só depois, e por facilidade, começaram a distinguir-se, a parecer-se com vozes. A trama começa sempre como algo inconsequente, um detalhe para o qual nos chama a atenção, adora estender um fio, agarra-se seja ao que for, e amarra o mundo entre coincidências. É cansativo ligar tudo, inventar sempre um propósito. Como se o acaso se esquecesse de nos pôr a mão, aliviar o peso, lembrar-nos que o mais importante é muitas vezes não dar tanta importância a certas coisas. É assim que tudo começa a parecer errado, a exagerar os motivos, os padrões, tudo se torna tão insistente. Parece que somos presas da nossa atenção espavorida. Tudo se articula por meio de vertigens, e de súbito há demasiadas rimas, não conseguimos deixar de sentir que o que antes parecia mudo, indiferente, agora se encheu de uma eloquência bastante dramática, e é preciso fazer alguma coisa, a realidade parece tomada de um frémito, encadeia tudo e atira-nos com uma série de imperativos. Há uma urgência devastadora que se lança sobre nós como uma febre, e parece que o destino geral do mundo pode depender do nosso êxito ou fracasso. Quem diria que ter tanta certeza pudesse ser ainda mais nauseante do que sentir-se completamente perdido. Pior que ficar sem chão pode ser a sensação de que o céu faz sentir todo seu peso nos nossos ombros. Talvez tenhamos chegado a isto numa inversão súbita desse sentimento prolongado de inadequação. De tanto nos sentirmos incapazes, revoltantemente impotentes, talvez se tenha operado em nós esse inesperado desenvolvimento que passa por livrar-se da dúvida, ser-se incapaz da relativização, de uma perspectiva parcial, limitada, como se só pudéssemos lidar em termos absolutos. Seria como imaginar-se um deus, um deles, esses que só podem estar loucos, uma vez que o excesso de realidade consegue ser a pior forma de demência. Como se esta tivesse encontrado um meio de infiltrar-se na nossa interioridade. Queixamo-nos tanto da sensação de vazio, mas raras vezes imaginámos como o contrário poderia tornar-se tão mais avassalador. Quando se inventaram os deuses talvez tenha sido para isto, para libertar espaço, para aliviar algum do peso. O mundo, o que lhe acontece, é lá com eles. Assim também podíamos virar-nos para os nossos demónios, negociar umas tréguas com as nossas fraquezas. Mas na humanidade começou essa conversa das grandes proezas, das disciplinas férreas, do génio, da superação dos limites. Que grande porra. Essas pérfidas religiões da eficácia, do progresso. Muito em breve parecia que o grande projecto seria exponenciar os elementos por um efeito de aceleração constante. Tiveram uma intuição danada os revolucionários franceses quando se puseram a disparar contra os relógios nos espaços públicos. Afinal, o que é um relógio? “Uma forma de parcelar a existência em fragmentos definidos e actividades regulamentadas. Um adorno com funções policiais”, responde Vivian Abenshushan, num dos ensaios do seu Escritos para Desocupados (ed. Cutelo), aquele texto em que parece intuir que a grande doença do nosso tempo vem do elemento central de dominação a que estamos submetidos: “Notas sobre os doentes da velocidade”, eis o título. Porque o tempo lido enquanto urgência, faz com que o tice o tac sejam sentidos como esporas dos dois lados, alguém, algo a apertar connosco, a inquietar-nos, e nós, começamos a sentir-nos em falta, a viver atrasados, arrastando-nos para preencher a projecção, como se uma sombra nos precedesse, assombrados já não pelo que temos atrás de nós, mas por previsões, expectativas, como se fôssemos precedidos sempre por uma promessa a que fomos coagidos. “De um processo da natureza, o relógio converte o tempo numa mercadoria que se pode medir, comprar e vender, como tecidos ou sabonetes” (George Woodcock). Hoje, e contrariamente ao que pensa, só os preguiçosos ainda revelam algum carácter, pois esses seres obstinadamente lentos são aqueles que se mostram capazes de se desenvencilhar dessas caricaturas esfaimadas que a civilização lança em cima de cada um de nós, cobrindo-nos de promessas de triunfo. Os preguiçosos, no entanto, preferem pequenas doses de eternidade, e desenvolvem as suas estratégias para se furtar aos apelos dessa máquina central, desse regime de sincronização em que deixa de ser necessário delimitar zonas carcerárias, bastando uma eficácia do cronómetro, uma exigência absoluta de pontualidade, para que cada um se sinta consumido pela angústia da velocidade, por essa constante recriminação que nos leva a abdicarmos do tempo próprio, daquele tempo de que precisamos para coincidirmos com nós mesmos, para estarmos afinados, sensíveis, disponíveis, atentos, o tempo que nos permite atingir um estado de soberania, e não esse tempo de arrasto, em que somos atirados de umas coisas para as outras, sempre contrariados, a ponto de sentirmos que a nossa vida se descreve como um frete interminável, um imenso castigo. Muitos sentimos que somos habitantes de um tempo demasiado lento para aquilo em que este mundo se tornou. Em vez de qualquer medida de gozo, prazer, desse juízo sobre a felicidade que estava na base das obras dos grandes moralistas de outras épocas, fizeram de nós gestores do nosso próprio cansaço. Somos os capatazes desse escravo, desse cavalo de Turim, que chicoteamos garantindo a sua miséria e a nossa. O corpo é uma imensa chaga, e acaba por desenvolver as drogas necessárias ao derrube deste ânimo doentio, o de seres conduzidos a uma tal miséria que se fustigam a si mesmos. Assim, este corpo que precisa de repouso, acaba por desenvolver aflições de tal ordem que nos levam a um esgotamento. “Através do esgotamento, o tempo biológico tenta impor um compasso distinto ao homem do tempo frenético”, escreve Abenshushan. Infelizmente, quando somos levados a essa ruptura, muitas vezes é tarde demais… “O burnout é um alarme que toca fora de tempo, quando o corredor perdeu o fundo e se tornou num estranho para si mesmo. O que vem depois mais parece um travão inútil, um travão depois da catástrofe. Ansiolíticos para ‘ralentar’ um corpo inerte.” Durante demasiado tempo impôs-se a libertação sexual como uma espécie de utopia, mas foram esquecendo que um dos grandes prazeres é a forma como os corpos desfalecem para se abandonar a um sono desordenado, um sono que não é efeito do cansaço, mas da libertação de si. Num tempo em que estamos devastados por um quotidiano em que o tempo não nos pertence, em que a angústia que sentimos vem de não conseguirmos ver um fim à vista para esse horizonte de tarefas por cumprir, percebemos que estamos atravessados de uma renúncia radical à vida, um esquecimento do ser. Assim, Abenshushan fala do burnout como o “prelúdio da morte do espírito, o elevado preço pago pelos soldados do dever, fustigados por um relógio tirânico”. É preciso pensar uma desordem de grandes proporções. Que os números se exprimam contra este esvaimento, esta forma de se ser arrastado, num corpo enfermiço, sem vigor. Devemos assumir um culto pela cama, “o encantamento da posição horizontal, a sabedoria da quietude”. Uma capacidade de se recusar por razão nenhuma, sem dar justificações a seja que entidade for. Ninguém precisa de ser convencido de que há algo de seriamente errado na forma como levamos as nossas vidas, como o tempo parece encolher de forma pavorosa, e a humanidade inteira se queixa de que o dia não lhe chega, que o ritmo que nos é imposto por essa realidade dominada pelo ímpeto da máquina digital nos atira para fora de qualquer relação com um tempo acolhedor. “Agora, tal como há cem anos, a dinâmica da aceleração continua a exilar o homem de si mesmo, e até da própria velocidade. (…) A velocidade celebrada pelos futuristas parece-nos hoje menos sedutora, talvez porque deixou de ser um meio ao nosso serviço para nos converter nos seus lacaios. (…) Um fascismo da instantaneidade. Foi a isso que chegámos: a guarda-livros exaustos por uma velocidade autoritária e omnipresente.” Continuamos a fazer recortes a partir do ensaio de Abenshushan, que assinala como “um mundo que vive apenas para trabalhar e trabalha até morrer é um mundo de dispépticos que se prepara para se transformar num mundo de semidementes”. “Com toda essa disciplina a toque de caixa, apenas se conseguiu que a vida não mereça ser vivida. No Japão, ao número de mortes causadas pelo excesso de trabalho soma-se o número de suicídios originados pelo desemprego. Durante a sua patrulha anual pelos bosques de Aokigara, no fim de 2012, a polícia japonesa encontrou setenta e três cadáveres, na sua maioria jovens que tiraram a vida por não conseguirem emprego, ou por terem sido despedidos. (…) Penso nesse bosque de cadáveres, no sopé do majestoso monte Fuji, e recordo aquela frase de Morand: ‘A velocidade é um caminho juncado de mortos, uma sede perpétua que nada sacia, um suplício omitido por Dante.’ Talvez Aokigahara seja como uma fotografia ominosa, o símbolo de um porvir em que os males associados à nossa obsessão pela velocidade se tornarão habituais, se não crónicos.” Neste episódio, vamos aproveitar-nos do trabalho de reconhecimento feito por Margarida David Cardoso a partir das vidas que, pelas mais variadas razões, se viram dominadas por crises psicóticas, um conjunto de sintomas muitas vezes associados a quadros de doença mental, mas que podem ocorrer por uma diversidade de causas, sendo este ainda um fenómeno cercado de incompreensão. A partir daqui e do livro Aquilo que vi no escuro (ed. Fundação Francisco Manuel dos Santos) derivamos, buscando respostas ao recompor sinais daqueles pássaros para quem o céu destes tempos se tornou demasiado pesado, demasiado sujo, e que, por mais corda que lhes fosse dado, vão caindo, sinalizando uma desorientação que talvez seja a lucidez que resta quando a maior doença é estar bem-adaptado a uma realidade miserável.
undefined
Mar 29, 2026 • 4h 27min

A Manosfera e os Drag Kings. Outra conversa com Maria João Faustino

“Também a ‘realidade’ dos corpos inocentes foi violada, manipulada, adulterada pelo poder consumista: mais ainda, essa violência sobre os corpos tornou-se o dado mais flagrante da nova época humana… As vidas sexuais privadas (como a minha) sofreram o trauma tanto da falsa tolerância como da degradação corporal, e aquilo que nas fantasias sexuais era dor e alegria tornou-se uma desilusão suicida, uma acídia informe”, escreve Pasolini, apontando aos elementos da mutação antropológica provocada pelo consumismo, à falsa tolerância sexual e à degradação dos corpos sob o novo poder hedonista-capitalista. Pasolini entendeu que o novo poder não reprime a sexualidade, como fazia o antigo poder repressivo, mas liberta-a de forma estratégica para a integrar no circuito do consumo, transformando os corpos em objectos homogéneos, normalizados, disponíveis, e destruindo a antiga dimensão trágica, ambígua e vital da experiência sexual. Aquilo que antes, na imaginação erótica, continha uma tensão entre dor e alegria, entre transgressão e descoberta, dissolve-se agora numa espécie de apatia informe, uma acídia moderna, onde já não há verdadeiro desejo, apenas repetição e desgaste. No fundo, também os corpos deixaram de ser um dado imediato, uma evidência silenciosa, tendo-se adaptado como peças de um puzzle numa imensa superfície de inscrição, campo de operações, zona de cálculo onde se cruzam métricas invisíveis, índices de desejabilidade, rastos de atenção, e aquilo que outrora se vivia como intimidade, como reserva obscura de dor e de prazer, aparece agora exposto a uma espécie de engenharia contínua, um ajustamento fino que não se limita a moldar comportamentos mas reconfigura a própria percepção do que pode ser desejado, tolerado, rejeitado, e é neste ponto que a falsa tolerância de que fala Pasolini não surge como abertura mas como técnica, uma ampliação controlada do possível que apenas serve para intensificar a captura, porque tudo o que é permitido é também imediatamente codificado, quantificado, integrado numa circulação mais vasta onde o corpo já não se pertence. Laura Bates tem analisado a forma como os jovens, hoje, entram em espaços digitais já saturados de uma linguagem que não inventaram, fórmulas prontas, estatísticas falsas, imagens reiteradas até à anestesia, e aquilo que se apresenta como discurso pessoal é na verdade a reverberação de um circuito onde o ressentimento foi previamente processado, refinado, embalado, pronto a ser consumido e reproduzido, como se alguém tivesse antecipado a ferida e lhe tivesse fornecido o vocabulário antes mesmo de ela ser sentida. Há um momento em Cosmópolis (Don DeLillo) em que o fluxo de capitais se torna quase indistinguível de um sistema nervoso, pulsações, variações mínimas, sinais que atravessam a cidade sem corpo visível, e talvez seja necessário pensar o presente a partir dessa mesma lógica, porque os algoritmos que governam as plataformas não fazem senão prolongar esse movimento, traduzindo afectos em dados, convertendo inseguranças em trajectórias previsíveis, fazendo da ansiedade um activo negociável, e nesse circuito fechado o corpo surge como terminal, ponto de entrada e de saída, atravessado por comandos que não se anunciam como tal, sugestões que se acumulam, microajustes que acabam por redefinir a própria textura da experiência. O que se observa nas comunidades descritas por Bates, nesses espaços onde a misoginia se densifica até adquirir consistência quase doutrinal, não é simplesmente uma reacção, é uma espécie de alinhamento com esta lógica mais profunda, uma convergência entre a economia dos afectos e a economia do capital, porque o ressentimento não é aqui um subproduto mas uma força motriz, algo que mantém o sistema em movimento, que garante a sua continuidade, e por isso mesmo é cultivado, amplificado, canalizado, nunca resolvido, nunca dissipado, apenas deslocado de um objecto para outro, sempre suficientemente próximo para ser reconhecível, sempre suficientemente distante para evitar qualquer confronto com as estruturas que o produzem. Os dados acumulam-se, curvas de atenção, tempos de permanência, padrões de interação, e por trás dessa acumulação há uma espécie de cartografia obscura, um mapeamento contínuo das vulnerabilidades, zonas de fragilidade onde o sujeito se torna mais permeável, mais disponível, e é precisamente aí que a intervenção ocorre, não sob a forma de uma imposição mas como uma sequência de coincidências, conteúdos que parecem responder a uma inquietação ainda mal formulada, imagens que antecipam um desejo ainda difuso, discursos que oferecem uma explicação simples para uma sensação complexa, e assim se constrói uma adesão que não passa pela convicção mas pela familiaridade, pelo reconhecimento imediato de algo que parece já ter sido pensado. A sexualidade, nesse contexto, deixa de ser uma experiência singular para se tornar um campo de simulação, um espaço onde se ensaiam identidades, onde se repetem gestos codificados, e aquilo que antes podia conter uma dimensão de risco, de descoberta, de ambiguidade, é progressivamente substituído por guiões previsíveis, por uma gramática rígida que organiza o encontro antes mesmo de ele acontecer, e quando esse encontro falha, quando a promessa não se cumpre, a frustração não encontra saída senão no circuito que a produziu, regressa ao sistema sob a forma de mais dados, mais cliques, mais procura, reforçando o mecanismo que a originou. Há aqui qualquer coisa que escapa a uma descrição puramente sociológica, uma espécie de conspiração sem centro, sem intenção declarada, mas que se manifesta na convergência de processos distintos, financeiros, tecnológicos, culturais, todos orientados para a mesma captura, para a mesma neutralização de qualquer energia que pudesse tornar-se disruptiva, e nesse sentido a violência sobre os corpos não é apenas física ou simbólica, é uma violência mais subtil, uma erosão contínua da capacidade de sentir fora dos parâmetros definidos, de imaginar fora dos cenários já previstos, como se o próprio campo do possível tivesse sido previamente delimitado. E, no entanto, tudo isto se apresenta sob o signo da liberdade, da escolha, da expressão individual, uma retórica que encobre o facto de que cada gesto, cada preferência, cada desvio aparente já foi antecipado, integrado, transformado em valor, e talvez seja essa a forma mais acabada de dominação, não a que se impõe de fora, mas a que se infiltra na própria estrutura do desejo, fazendo com que aquilo que se vive como mais íntimo, mais pessoal, seja já o efeito de uma série de operações invisíveis, uma sequência de decisões tomadas algures numa rede de servidores, onde o capital circula à velocidade da luz e o ressentimento é apenas mais um dos seus derivados. Há algumas décadas, J.G. Ballard notava como, então, e em termos quantificados, vivíamos em registos não lineares: “ligamos a televisão, desligamo-la meia hora depois, falamos ao telefone, lemos revistas, sonhamos e assim por diante”. “Não vivemos as nossas vidas em termos lineares no sentido em que os vitorianos viviam”, acrescentava ele. Hoje, não apenas não vivemos em termos lineares, mas, de alguma forma, as nossas vidas são meros delírios aos quais falta qualquer nexo ou lógica interna, apenas podendo ser apreendidas quando analisadas enquanto um efeito mais geral de afinação das dinâmicas de mercado. Nunca como hoje fomos seres que acumulam um tão grande prejuízo do ponto de vista narrativo. Não conseguimos explicar nenhum dos nossos gestos senão reconhecendo que estamos dominados por um imenso engodo. Neste episódio, e a partir do recente documentário de Louis Theroux para a Netflix, com as orientações e a experiência da Maria João Faustino para detectar as armadilhas discursivas e certas imbecilidades mais persistentes, tentámos pensar estes fenómenos que ganham expressão entre o céu e a terra dos nossos simulacros e que servem para enredar-nos e atrofiar todo o esforço de reflexão e resistência crítica, para que este quadro de antagonismos e representações falsas continue a determinar um efeito de separação e alienação cada vez mais drásticos.
undefined
Mar 20, 2026 • 4h 47min

Ler livros de história num bordel em Alexandria. Uma conversa com José Luís Costa

“Daqui por mil anos não restará nada/ de quanto foi escrito neste século./ Hão-de ler-se frases soltas, pegadas/ de mulheres perdidas,/ fragmentos de crianças imóveis,/ os teus olhos lentos e verdes/ simplesmente não existirão./ Será como a Antologia Grega,/ ainda mais distante,/ como uma praia no inverno/ para outro assombro e outra indiferença”, escreve Bolaño, ditando essa perspectiva que, estranhamente, não deixa de nos agradar muitíssimo. Perdidas todas as batalhas, poderemos encantar-nos com o sabor daquilo que não tem a obrigação de perdurar. “Seremos pasto de tumbas ignoradas”, adianta Juana Bignozzi, poderemos colher ideias frescas nas oficinas esquecidas, poderemos esquecer o prestígio ridículo dos inventores e entregarmo-nos aos anseios desses grandes coleccionadores, aproveitando o desdém generalizado pelo que teve o seu tempo e, se lhe fosse dada a escolha, não regressaria a este mundo. Neste eterno crepúsculo com cadências de silêncios, o próprio tempo parece uma matéria que só nos é permitido revisitar em velhas gravações, murmúrios indisciplinados vertidos entre línguas que caíram em desuso, variações mais e menos audíveis que vamos ponderando a partir de algum rumor medieval. Nesse percurso solitário daqueles que se entregam aos prazeres da derrota entre o vaivém das fronteiras, vemo-los fumar de olhos semicerrados, recitar bardos provençais, e a distância parece já ser a única linguagem poética. Seja para diante, com a pouca inteligência que nos resta, seja na direcção que nos dá mais escolhas, a que se desdobra atrás de nós, terão cessado esses reclames luminosos que remexem e tornam intragáveis as noites, esse ar cheio do zumbido de nomes que ficaremos aliviados por não mais termos de pronunciar, e, então, redescobrir-se-á os sinais desse deus da estranheza de que fala um poeta alemão que se acolheu brevemente entre nós por estes dias, essa espécie de trégua que nos aguarda depois de todo o desencanto moral com a época, uma desistência que nos leva à lembrança de outros mortos. Há muito que aquele velho nos advertira sobre um enredo intransitável como a pior forma de compreensão da vida, a perda do fascínio num mundo que não seria mais que a sombra de velhas destruições, as quais se foram tornando ilegíveis para nós, e, portanto, incompreensíveis. Com essa indiferente soberania que passou a dominar a relação com o passado, não saberíamos mais o que nos motivou, e, em breve, mesmo o desejo não escaparia já às “pérfidas emboscadas pavlovianas” (Bolaño). O transporte dos deuses teria de ser feito na alma, teriam de ser recriados por cada um na sua mente, trazendo de volta a raiva e outras paixões, condimentando-as com inebriantes especiarias de toda a espécie. Tudo o que nos ensinam é a vergonha e o desprezo por um mundo no qual a raça surge nas suas variações mais urgentes, misturando subtileza e sobressalto, pequenos gestos nessa escala epigramática que poderá ainda gerar em nós a ânsia de nos libertarmos de uma época sem a menor promessa, “imbuída de um sentido medíocre de autopreservação que é afinal uma forma de cobardia e de fechamento intelectual” (Tatiana Faia). Nestes dias em que tudo o que diz respeito à humanidade parece depender da nossa memória, o furor logo transforma em olhar histórico o nosso modo de encadear os signos e detalhes empenhados em evadir-se dos constrangimentos de um presente sem saída. “Se os mitos, os relatos, os livros ‘são’ a nossa infância”, lembra José Emilio Pacheco, isto deve-se a ser com eles que “aprendemos a conhecer o mundo, pois, como acreditava Cesare Pavese, ninguém admira uma paisagem antes de que a arte, a poesia – até uma simples palavra – lhe tenham aberto os olhos”. Numa época que não parece estar interessada noutra coisa senão em abandonar-nos às convicções mais grotescas, limitando-se a garantir o direito das pessoas de se comerem umas às outras (infelizmente, apenas e só no pior dos sentidos), quando vemos toda essa carga de desdém em que a poesia ou reverte para as lógicas de publicidade e competição ou é ignorada, em que vemos o corpus tradicional da cultura desfazer-se instantaneamente em pó, como um cadáver num túmulo aberto depois de passar muito tempo selado, o poeta vê-se obrigado a fechar-se com o passado que possa salvar, cultivando o seu estilo áspero e tenso, e nem por isso devastado, mas consciente, sensual, capaz de se debruçar sobre episódios históricos e adivinhar as fendas eróticas, tentando escavar uma saída face a este tempo que serve de morada aos malditos filisteus para quem o mundo não passa de um saco de ossos. É neste género onde se acolhem uma imaginação e desejo tão hábeis no modo de se ocultar e aguardar o momento propício para se deixarem revelar, que Kaváfis provou ser o mais sagaz dos cicerones, abrindo passagens, revelando percursos secretos, as cidades que se abrem soprando o pó… “Aquilo que, em estudante, a medo imaginou,/ ei-lo aberto e patente à sua frente. E vagueia, pouco dorme/ deixa-se levar. Tal como convém à nossa arte,/ rejubila o prazer em/ seu sangue novo e quente. Vence seu corpo/ a ilícita embriaguez erótica; a esta se entregam/ os seus jovens membros.” Porque todo o desejo vai no sentido da ilicitude, porque o tempo só pode ser lido contra a luz desse clandestino desejo da carne. Porque a história e as estátuas não estão fixas, mas mudam de sítio e fazem outros gestos por dentro dos nossos sonhos, mas mantêm aquele vigor, testemunham pelo prazer, por esse rigor de quem sempre detestou qualquer deleite de amor rotineiro. “Tanto a beleza contemplei/ que toda dela se tornou minha visão.// Linhas do corpo. Vermelhos lábios. Voluptuosos membros./ Cabelos quase roubados a estátuas helénicas:/ sempre belos, embora desgrenhados; recaem ao de leve sobre faces brancas./ Rostos do amor, tal como os quis/ a minha poesia…… No interior das noites da minha juventude,/ nas minhas noites, escondidos, encontrados……” Neste episódio, como intermediário nestas lides vergonhosas, tivemos connosco o tradutor que, depois de Sena e da dupla Magalhães/Pratsinis, depois de Manuel Resende, se implicou no temerário esforço de verter para português a poesia completa de Kaváfis. José Luís Costa tinha compartilhado já a responsabilidade por um dos mais assombrosos e pungentes livros publicados entre nós nos últimos anos – Diário do Exílio, de Yánnis Rítsos –, tendo assinado também uma série de outras traduções a partir do grego moderno de autores como Katerína Gógou, Dimítris Lyácos e Yánnis Stíggas. Com alguns livros de poesia publicados também em seu nome, juntou-se a nós para nos ajudar a reaver um percurso entre visões anacrónicas e cada vez mais instigantes, e discutir a sábia função profética de um ser que, se nunca deixou de reconhecer as suas limitações, também nunca se resignou a elas: “Tenho consciência de que sou um fraco, incapaz de agir. Limito-me, por isso, a falar. Todavia não considero que as minhas palavras sejam supérfluas. Outro agirá. Mas todas as declarações que eu faça – eu, o fraco –, facilitar-lhe-ão a passagem à acção. Limpam o terreno.”
undefined
Mar 13, 2026 • 4h 22min

Os ossos de Che Guevara a flutuar no espaço. Uma conversa com João Vasco Lopes

Sempre que se diz alguma profanidade com suficiente desarranjo para ferir a sensibilidade do leitor começa a contagem decrescente em que toda a gente se sente no direito de exigir a súbita torção redentora ou, pelo menos, um efeito de retratação, de forma a que se possa reforçar alguma noção moral entre a dejecção da época. Podemos descer o mais fundo que se possa imaginar à “latrina do coração” (Flaubert), mas de algum modo, em lugar do inferno, todos esperam escapar aos piores efeitos de degradação. No fim, todos querem saber-se a salvo da verdadeira infâmia, aquela em que alguém se acha quando apenas serve como exemplo aos demais para irem afinando as suas repressões, o seu falso moralismo puritano. A infâmia perdeu o carácter. Como assinala Claudio Magris, “muitos livros ostensivamente profanadores não chegam a ser na realidade desagradáveis – a irritar, a ofender, rejeitar, perturbar – porque a sua provocação é a máscara, demasiado transparente, de sentimentos nobremente humanos e os arroubos exibidos são apenas simpáticas e inofensivas licenciosidades imaturas”. Ficamos sempre felizes por saber que o traste, quando chega a hora da verdade, é capaz de um gesto de redenção. E o pior é todos estarmos muito seguros sobre o que isso possa significar. O que sejam os actos verdadeiramente bondosos. Como nos diz Eduardo Lizalde nuns versos: “A maior das purezas é a abjecção./ Não restam dúvidas./ Mas consolai-vos, oh puros:/ também os abjectos e os vis/ não o são totalmente./ Por vezes cheiram rosas/ e acariciam cordeiros com sinceridade/ ou beijam crianças/ e dão a sua vida pela Revolução.” Continuamos a encher a boca com palavras desvalidas, sem levar em conta quais são os órgãos que seria preciso desenvolver para mergulhar nessa zona esgotante capaz de exaurir as frivolidades com que nos chega esse leitor hipócrita, convencido da clareza dos seus juízos morais, esse burguezote apalhaçado que se furta por todos os meios ao emaranhado de paixões, brutalidades, aridez, vileza e negro sofrimento sem saída que a vida chega a ser. A maldade ou é uma instrução contra os nossos instintos e intuitos originais ou não é nada. Fazer parte do bando diabólicos, dos tais apóstolos da transgressão, significa lutar pela inversão dos grandes signos. A revolução começa por corroer os estratos da dimensão simbólica, pela derrogação de todas as certezas e conformismos. Os orgãos lutam para desembaraçar-se dos astros, daquela música que tão depressa faz de nós seres caducos. Daí que tantas vezes o pâncreas acabe calcinado, talvez por incapacidade de produzir a dose suficiente de bílis para se regular, pôr a ênfase necessária, lidar neste insistente deserto. As glândulas afinam por esse gotejar do que nos olha a partir das zonas mais escuras de nós próprios. Saímos do silêncio, cercados por ele, procurando destruí-lo sem o perder inteiramente. Também temos de criar um órgão para o trazer dentro. Estes vazios que guiam o sentimento. Vamos lendo outra coisa de costas para anúncios luminosos que propagam pela noite dentro esse resíduo ulceroso, e nem os insectos se lhe chegam, preferem ser engolidos pela resina, ou como certas flores e plantas encontrar o fogo, descobrirem pela chama aquela irisação do que depressa se cobre de negro. Temos algumas pedras, atiradas e recuperadas. Gostamos de como a terra as mastigou. Frases capazes de interceder enquanto ecos, esse detalhe dos nossos melhores erros. Ao longo do dia também nos pesa de diferentes modos. O vento quer lembrar-se de algo, ergue-se para uma demonstração, mas logo lhe falta a confiança e prefere adiar. Muitas vezes o mundo deixa de estar onde contávamos com ele. Há tantos nomes que de súbito deixam de responder. Pomos a mesma mesa, essa feroz mesa, mas as imagens parecem empurradas, as raízes apodrecidas, tudo contrariado. O crime é demasiado incerto. Não se sabe realmente como ferir fundo as leis principais. Por isso acabamos por nos virar para aqueles que têm o talento devastador do fracasso, dominados toda a vida por essas injúrias, e é assim que ouvimos contada de diferentes maneiras a fábula do fígado, a intensidade daqueles que foram levados a despedir-se dos dias. Os homens deixam de o ser rasgando o que de si mesmos conheciam. Por um ódio prometedor aceitam tomar para si mesmos expressões que noutras idades os teriam assustado. É preciso uma certa dimensão do inútil, o gosto por aprofundar as energias que não correspondem aos ciclos, aos bens ou às finalidades terrenas. A maldade é dar o ouvido àqueles deuses estragados, os que aprofundaram os seus defeitos, cultivaram-nos para extrair deles secreções que provocam tonturas e contorções a quem não se habituou a respirar esse ar capaz de gelar os pulmões e até a alma. O mal faz-se voltando atrás. É uma ferida na memória que não se deixa em paz. Voltando, voltando ao que ficou soterrado, escavando esses corpos, barcos, é uma forma de corroer o tempo. Com vagarosos gestos ocupamos os lugares, detemo-nos, contando, apostando, sempre através dessa desolada observação dos factos e dos feitos. Temos de estar dispostos a escutar até ao fim as nossas derrotas, a perfeição tortuosa do seu argumento, o elemento sinuoso de uma linguagem de sentido perdido. Com tudo isto, fica claro como o passado pode ser aberto, revisto, como é possível impor aos vermes um princípio de indústria. O tempo não precisa de ir todo no mesmo sentido. Podemos gravar certas intuições esperando outra atenção e inteligência de nós mesmos, ir marcando, dialogando com nós próprios em diferentes momentos, como se nos conduzíssemos, deixando espaço para aquela firmeza desesperada que, por agora, ainda nos falta. A memória deixa caminhos para mais tarde. Ainda voltaremos a esses cuidados, já sem a razão a ditar uma linha que seja, consumidos então pelo fogo, aquela vida que se propaga entre outros corpos, rasando o segredo, alimentando-se de estranhos reflexos. No fundo, a moral foi aquilo que nos fez conhecer a morte mais de perto, nos disse "não" vezes demais. Mas teríamos sido outros se tivéssemos escutado os elementos da sedução. Ficam-nos os cortes na pele, dessas silvas que roçamos até estarmos perdidos, a ânsia de crescer num odor oculto, deixar o sangue dar a volta mais larga, enegrecer sobre essas zonas onde o amor escolhe o outro lado da vida e nos transforma. Produzem-se imagens, restos futuros, fósseis que iluminam o que está por vir. Outros astros fazem as nossas sombras cambalear, e sonhos há muito esquecidos abrem enfim a boca, aproximam-se para nos dar sinais de um mundo que julgávamos conhecer. Quando deixas de falar sozinho, aí, sim, estás realmente perdido. Não tens quem te instigue o pior, e, naturalmente, também o melhor deixa de poder ser visto como uma escolha. Derivamos para o espaço, por falta de gravidade, ficamos dominados por essa insignificância comovedora. Como lembra Magris, as palavras “bondade” e “bom” não nos soam deslocadas na boca de Dostoiévski precisamente porque ele mergulhou sem qualquer reserva no lodo que corre nas nossas veias, como um messias que ressurge mas antes morre e desce verdadeiramente ao inferno. “A literatura explicitamente transgressora é também muitas vezes impulsionada, bem lá no fundo, por sentimentos tão bons que não podem ser confrontados com a crueldade tão frequente e triunfante da existência”, vinca o ensaísta triestino. Já antes Eduardo Lizalde havia notado como “Tudo o que é edificante é reaccionário/ (vejam-se os efeitos).” O mal permanece solteiro, é na verdade a única dimensão verdadeiramente heróica e solitária no meio de uma criação cabisbaixa, ferida por essa tentação de se submeter a algo de superior. Os intérpretes da verdadeira vontade devem ser os primeiros alvos a abater. Mesmo se surja com eles o primeiro sinal dessa presunção capaz de inventar um sentido e a razão de deuses que acabam por ser os verdadeiros triunfos da demonicidade humana. Mas somos vítimas demasiado voluntariosas dessa tendência para pôr a fé num borra-botas qualquer. Se, por outro lado, nos contássemos outras histórias, se tivéssemos órgãos, alguma apetência e educação para nos sabermos servir entre os melhores exemplos da danação… “Talvez um olhar impiedoso seja hoje mais necessário do que nunca, num momento em que se desmoronaram as ilusões das grandes filosofias da história, persuadidas de que as contradições da realidade trariam consigo a sua própria superação e conduziriam inevitavelmente a um progresso ulterior; o devir do mundo parece agora entregue a uma ebulição caótica e imprevisível, indiferente aos grandes projectos e perspectivas. Nesta capacidade de perscrutar verdades até intoleráveis reside uma bondade maior do que qualquer afabilidade conciliadora e temperada: a disponibilidade para descer, com uma piedade intrépida e desolada, até ao fundo da nossa obscuridade.” Neste episódio, vamos afastar-nos na direcção desse vazio que rejeita a medida e as disposições de ordem humana. João Vasco Lopes, uma dessas inteligências que tanto estimam o acaso, a adaptação, aquela evolução nervosa que exigem hoje os grandes sistemas, veio falar-nos das fronteiras que se viu a assediar timidamente, e estamos a falar do Espaço, dessas garatujas que desenhamos nos muros imensos de tudo aquilo que melhor exprime a nossa ridícula dimensão, o como não passamos de uma civilização que ainda nem saiu do berço. Vamos procurar tomar balanço para assaltar algumas zonas de recreio entretanto desactivadas do campo literário, agora que todos os exercícios com letrinhas nos fornecem toda essa consolação oferecida sem interrupções, de tal modo que a vida literária ocupou o lugar das ordens religiosas e dos conventos de freiras.
undefined
Mar 7, 2026 • 3h 2min

Não gosto que salvem o mundo à minha custa. Uma conversa com José Gardeazabal

“Tudo é fácil quando temos vontade própria e estímulo alheio, mas é difícil sermos aquilo que somos. Os outros não deixam.” E ainda que lhes fosse indiferente, que não se acumulasse neles esse rancor de ver alguém tomar um enorme balanço, entregar-se a uma euforia tal que não precisa de outra coisa senão de preencher um instante, até contra o resto da sua vida, como se tivesse um poder de se libertar e esquecer de si mesmo, sendo essa a maior das fantasias, mesmo assim os outros estariam aí para te desmentir. Afinal, aquela chispa ou ferocidade que alguns revelam e os torna capazes de se desembaraçar dos efeitos previstos, de se borrifar no contexto, é aí que se acha o maior dos privilégios. E aquela compulsão mitómana é talvez o último sinal de arrojo, uma vez que a história inventada é sempre mais aliciante do que a maçadora tirania dos factos. Contudo, o grande entrave são os outros, e parece evidente como toda a etiqueta social se desdobra nessas fórmulas mais ou menos sub-reptícias de interromper alguém. Há, no entanto, alguns que sabem torcer pela oposição, viver como felizes desgraçados, muitas vezes até por conta de outrem, gozando os sinais de insubordinação. Depois daquele arranque, vamos citar-vos novamente Santos Fernando para deixar aqui outra pedra angular: “Tive que chegar à evidência de que o nosso semelhante é justamente aquele que em nada se nos assemelha.” Mas há mais… “Gostamos, nos outros, o que os outros não gostam neles.” O amor próprio deve assim ser colhido não em si mesmo mas à volta. Este não é um tempo para os homens andarem muito confiantes de si mesmos, pois isso identifica-os com os piores. Os melhores são os que se fogem, os que escapam. Aqueles que se fazem tão esquecidos de si que muitas vezes páram junto às montras para confirmar os traços do próprio rosto. “É para sabermos quem somos, que transportamos no bolso o bilhete de identidade.” A razão de toda esta solidão em que nos sentimos a dissolver, reféns de um quotidiano que trabalha em nós como ácido, é este excesso de confiança nas aparências, a forma como o espectáculo passou a governar até a metafísica. No fundo, um tipo só podia reconhecer-se nas divisões, na forma como num determinado momento parecia fazer uma escolha contra o de antes, contra si mesmo, romper, partir-se. “O Eu tem um conteúdo que o distingue de si, pois ele é a negatividade pura ou o movimento de se dividir, é a consciência”, escreveu Hegel. “Este conteúdo, na sua diferença, também é o Eu, pois ele é o movimento de se suprimir a si mesmo ou a negatividade pura que é o Eu.” Se temos tanta dificuldade para nos arrastar para fora de casa, fazêmo-lo porque, apesar de tudo, ainda é agradável encontrarmos na rua os nossos desconhecidos, especializarmo-nos na dor dos outros, como diz às tantas uma das personagens do último livro do nosso convidado. Saímos num gesto meio desaforado como quem se diz adeus a si mesmo, batendo com a porta, ofendendo-se os dois mutuamente, o que ficou e o que saiu. Fazemos estes cortes, ignorando-nos para nos conhecermos melhor. Santos Fernando ainda nos coloca diante de uma outra constatação: “– Perdão – exclamou o que tinha experiência da vida, experiência da falibilidade humana e experiência da bisbilhotice: – Só não espreita pelo buraco da fechadura, aquele que tem receio de estar a ser substituído do lado de lá.” Na verdade, esta frase deveria inverter-se, pois o receio mais constante nos nossos dias, um receio pânico, vem não da mera suspeita, mas da consciência de que estamos a ser substituídos do lado de lá, e não apenas por alguém novo ou melhor, mas por alguém muito parecido, um semelhante, um ser apenas um pouco mais indiferente, e, por isso, melhor adaptado às circunstâncias. Aquele que se ri da expressão que fazemos, aquele que nos provoca, esse duplo sinistro que divide connosco o mesmo lance de dados. “Acredito sinceramente ter interceptado muitos pensamentos que os céus destinavam a outro homem”, admitia Laurence Sterne. É uma forma de reconhecer essa capacidade de ocupar o lugar de outro… “Há gente que tem pára-raios para que os raios lhes caiam em casa”, retruca Santos Fernando, sempre à coca de uma oportunidade. Ele poderia concordar com o nosso convidado deste episódio quando ele reconhece que, entre certos seres sem tempo para os grandes arranjos litúrgicos, “Deus manifesta-se sob a forma de um insecto aramaico em risco de extinção”. “Um insecto fugidio, escondido em toda a parte”, adianta. E ainda acrescenta: “A palavra aramaico soa tão bem, não precisamos de mais nada para acreditar.” De resto, a fé já não é essa espécie de utopia transparente, mas algo mais rastejante, que sobrevive à base de impulsos, coincidências meio patéticas, um arranjo fenomenal de ninharias. Às tantas, num daqueles armazéns onde alguns tipos assistem à rotina frenética das mercadorias, esses milhares de produtos destinados a um trânsito internacional que, como nos diz José Gardeazabal, parece imitar o ritmo fértil das grandes migrações, fica claro como vamos sendo reduzidos a essa humildade dos espectadores da catástrofe, e às tantas percebe-se que o homem é precisamente aquilo que toda esta inquietação das mercadorias acaba por destruir, tornando-se um ser inteiramente esmagado, atirado para a margem, desfigurado por essa nova forma de miséria que se foi impondo com o monstruoso desenvolvimento da técnica. Como assinalou Erich Auerbach, “nos seus começos gregos, a poesia europeia possuía o conhecimento de que o homem seria uno – algo de indivisível, constituído pela força e pela forma do corpo, pela razão e pela vontade do espírito, de que o seu destino particular se teria desenvolvido a partir de uma tal unidade, quando à sua volta se reuniam, como que por atracção magnética, as acções e paixões que lhe estavam reservadas, fixando-se nele e formando assim elas mesmas uma parte da sua unidade”. Aquele filólogo e crítico literário vinca que foi “este entendimento que conferiu à epopeia homérica a intuição e a compreensão profunda da estrutura dos acontecimentos possíveis”. “Inventando e sobrepondo acções e paixões do mesmo tipo, Homero deu forma a Aquiles ou a Ulisses, a Helena ou a Penélope; de uma acção que revelava a essência, ou ainda de uma essência que se anunciava numa primeira acção, surgiu ao poeta inventor, de forma necessária e natural, a série e a suma das acções, tornadas idênticas, de todos eles, e ao mesmo tempo a orientação geral do percurso das suas vidas, o seu entrelaçamento no tecido dos acontecimentos, que constitui tanto a sua essência quanto o seu destino.” Mas hoje já não há unidade nos homens porque o destino é precisamente aquilo que faz deles esses seres inertes, dominados por um vazio que escarnece de todos os seus gestos. E também por isso o romance está em crise, pois não sabemos como traduzir alguma inspiração literária que sirva de fôlego a verdadeiras personagens, construindo a sua fictiva autonomia, e que habitem soberanamente essa zona dos mitos criada pelos grandes escritores. Vamos andar por aqui, indagar ainda sobre a forma como o novo paradigma tecnológico infectou a carne. E se, finalmente, e ao cabo de tantos naufrágios, o velho lobo desse mar que há décadas ia pingando pelas torneiras mal fechadas de tantas casas portuguesas lá se despediu de vez, também por aí vamos passar, aproveitando para uivar entre as fronteiras já praticamente apagadas da nossa cultura, e sempre com Gardeazabal a expor-nos a vasta colecção de pulgas colhidas noutras paragens e que a ele o ferram mais fundo e lhe transmitem a sua febre.
undefined
Mar 3, 2026 • 4h 17min

Agarrados & empreendedores. Uma conversa com Miguel Marques Ribeiro

A notoriedade actual de certos escritores baseia-se sempre num mal-entendido. Há um desejo de ver surgir figuras que possam corresponder à imagem do grande homem, esse capaz de encarar o mundo por meio de ideias imunes aos desaires da época. Mas essa mesma relação que mantemos com alguns autores não passa de uma projecção, pois, como sinalizava Sartre, é lisonjeiro para uma nação ter produzido uma figura dessas, permite que se convença da sua própria importância e prestígio. E se não faltam nunca um punhado de recolectores capazes de compor arranjos e fazer da sucata algo imponente, um pensamento que tenha verdadeira força já não é algo de desejável, porque este ofende, gera nervosismo. Diante desse tipo de figuras ninguém consegue estar realmente em paz. Desde logo, esse tipo de homens consegue sempre sacudir a matilha de homenagens que procuram abonecá-lo, encontrando as forças para provocar escândalo, rasgando vias impróprias em vez de se aproveitar das auto-estradas nacionais. Sartre vinca a necessidade de diminuir a circulação fiduciária da literatura. E se a esta, nos últimos tempos, apanhamos sempre a dormir, incapaz de paixões fortes, aguardamos esse sobressalto, mesmo que seja a cólera, algo que a possa despertar. Quando vemos a generalidade dos escritores participarem nas desgastantes homilias que vão promovendo os poderes oficiais e oficiosos, com a cobertura dos jornais, o apoio dos programas de promoção do turismo e a congeminação das dst’s e outras firmas industriais, não é difícil perceber como o autor foi transformado em funcionário e se vê sobrecarregado de funções e honras que servem para apagar qualquer intuito mais perverso. Se em tempos a literatura era vista como uma ocupação de ociosos, uma actividade parasitária, pecaminosa, hoje passou a ser encarada como mais outro instrumento de propaganda. Quanto mais se agarram ao prestígio mais longe ficam de qualquer relação com a infâmia que caracteriza a indução de um pensamento degenerado. Mas, até em cima disto, temos sempre de aturar uns e umas que nos vêem explicar o cariz didáctico da literatura. Enquanto isso vemos como uma cortesia fremente reina no mundo das letras. Ora, com a brusca hecatombe dos decanos nas primeiras duas décadas deste século e uma vez que se conseguiu fazer da rendição das anteriores sentinelas um princípio de vacatura, enquanto eram os próprios escritores os primeiros a quererem gozar de um mero favor publicitário, em vez de uma discussão rude e exaltante, viraram-se todos para as lógicas de inflação literária, e, por isso, só conseguem ser lidos pelos consumidores gerais que se guiam pelas tendências de estação. “Ao tratar as produções do espírito com um respeito que outrora apenas se manifestava para com os grandes autores mortos, arriscamo-nos a matá-las”, sublinha Sartre. Mas ele ainda entendia que aqueles escritores que se sentiam adulados não deixavam de sentir também um obscuro despeito, uma vez que “não é agradável ser tratado em vida como um monumento público”. Ora, foi isto que mudou. Hoje os escritores detestam o risco, o confronto, deixaram-se socializar no pior sentido da palavra, e já não são aos olhos de um público por eles mesmos cultivado aquelas figuras que estavam animadas de projectos maliciosos, capazes de proferições danosas. Hoje, cada um à sua maneira, faz papel de embaixador. Nem reconhecem uma alternativa. Ficariam em apuros se todo esse enredo diplomático perdesse os apoios institucionais, as suas galas e cerimoniais, uma vez que há muito o próprio mercado desertou esses circuitos, e nada a não ser as lógicas de cumplicidades com o poder conseguem segurar todo esse dispositivo. Poucos se dão conta de como a literatura se dissolveu num regime de pura expectativa, de tal modo que mesmo essas obras literárias futuras e tão ansiadas participam já na dignidade duma cerimónia sagrada. E, assim, cada escrito novo procura simular essa recepção, encenando uma cerimónia de acordo com os protocolos oficiais, e prestando a sua contribuição benévola para as festividades que permitem aos pequenos poderes servirem-se da cultura como uma indústria de totems, usando aquela entoação enfatuada e grave para que o patetismo dos seus conselhos simule uma função oracular. Nisto, o que é pena é que esta manobra tacanha sirva para convencer os escritores e os artistas a conformarem-se a ser apresentados e recomendados como bens nacionais. Devemos reconhecer como este estado de coisas convida mais à indiferença do que a ânimos exaltados. Parece excessivo detestar esta gente, a não ser pelo inconveniente que há em tentar fazer-se alguma coisa que ainda corresponda àquele jogo meio anárquico de malfeitores que iam aperfeiçoando os seus desafios por escrito, sendo que agora tudo o que diz respeito aos livros se vê sempre acompanhado de uma insuportável algazarra promocional, ao ponto de mesmo os poucos e ridículos passos que se dão neste deprimido reino terem de ser pagos com uma perpétua indigestão ao entrar em contacto com toda essa solenidade balofa. É tão desgastante essa caldeira, essa fornalha, esse grelhador em que se tornou a vida das letras, com as suas intimações constantes, imposturas, exaltações falsas, o banho de alarvidades e os constrangimentos a que qualquer um se vê sujeito para acomodar as aspirações e ilusões dos demais, esta máquina de espuma que ensopa e engole tudo, que faz dos triunfos as maiores ciladas, tudo isso é um preço demasiado elevado para um tipo querer chegar àqueles poucos leitores que lhe justificam tamanho empenho. Dá a sensação até que todo este quadro não serve senão para atrasar e despistar esses encontros. Não é de estranhar que precisamente aqueles espíritos mais instigantes sejam dos primeiros a sentir-se enojados com este contexto, preferindo desperdiçar a sua energia malévola em zonas menos cercadas por toda esta pompa e idiotice. É como se a literatura não quisesse libertar-se já da descrição mais enfática e redutora de todos os vícios, como se trabalhasse para se cingir à reprodução daqueles aspectos em que incidiu a sátira que lhe foi sendo feita, como se a realidade quisesse levar a uma apoteose o elemento da farsa, gerando uma paródia em que a sua descrição mais demolidora não se distingue muito dos efeitos da sua publicitação. Há uma inesperada capacidade de satisfação, uma correspondência com as aspirações mais tacanhas, e que fazem as delícias de muita gente. A partir daqui, as piores coisas que possam ser ditas sobre o meio literário não deixam de enaltecê-lo. Barricou-se na sua fantasia pindérica. Qualquer noção aventureira da vida literária que algum escritor ainda estime apenas levará a que se sinta como um intruso, um inadaptado no reino destes que parecem reclamar e comungar das mesmas referências. Mas quem as toma a sério admite que a literatura possa ser uma droga dura, ao passo que aqueles aprenderam a forjar a partir dos mesmos ingredientes toda uma linha de calmantes e anestesiantes. A literatura passou a significar uma zona de repouso, mais outra estância de retiro. A própria vida ali é algo de que devemos desintoxicar-nos… Se a literatura foi uma forma de rejeição audaz, agora é arrastado rito, um regime de mumificação em vida. O longo rito que mistura o baptismo à extrema unção. “Ainda não viveste, e no entanto, já está tudo dito, tudo acabado”, escreve Georges Perec. “Só tens vinte e cinco anos, mas o teu caminho já está traçado. Os papéis, as etiquetas estão prontos: desde o bacio da tua primeira infância até à cadeira de rodas da tua velhice, todos os assentos aguardam a sua vez. As tuas aventuras estão tão bem descritas que a revolta mais violenta não faria pestanejar ninguém. Por mais que saias para a rua e mandes às urtigas os chapéus das pessoas, e cubras a cabeça de imundícies, e andes descalço, publiques manifestos, dês uns tiros de pistola à passagem de um qualquer usurpador, de nada servirá: a tua cama já está feita no dormitório do hospício, o teu talher está posto à mesa dos poetas malditos. Barco bêbado, miserável milagre: Harrar é uma atracção de feira, uma viagem organizada. Tudo está previsto, tudo está preparado até ao mais ínfimo pormenor: os grandes arroubos do coração, a fria ironia, as grandes dores, a plenitude, o exotismo, a grande aventura, o desespero. Não venderás a alma ao diabo, não irás, de sandálias nos pés, precipitar-te no Etna, não destruirás a sétima maravilha do mundo. Tudo está já preparado para a tua morte: a bala que te levará deste mundo já está fundida há muito tempo, já designaram as carpideiras para acompanharem o teu caixão.” Face a isto, há a necessidade de um programa de reabilitação face aos próprios processos de constante habilitação, uma desintoxicação já não dos perigos mortais, mas de todos esses fervores beneméritos, e neste episódio tivemos connosco Miguel Marques Ribeiro, um tipo que começou por registar o mundo fotograficamente e acabou por se tornar jornalista numa altura em que também os decanos estavam a ser desmobilizados, abatidos ou reformados compulsoriamente. Também chegou demasiado tarde ao campo da narrativa de ficção, aproveitando um fulgor anacrónico para se estrear com Gólgota, que nos remete de volta às décadas em que os paraísos artificiais foram esmagando os botes salva-vidas cheios daqueles que sentiram que o canto das sereias era demasiado berrante, uma orgia tão vasta quanto desgastante, sem verdadeira promessa nem êxtase. Hoje, a sociedade conseguiu fundir agarrados e empreendedores, mas, entretanto, já o regime de narcose actual não representa perigo nenhum, e mesmo a epidemia de drogas de prescrição que alastra um pouco por todo o mundo não é mais que as dores de crescimento de um novo quadro de administração em que a própria sobriedade, pelos seus efeitos de desilusão e depressão, deverá ser corrigida por fármacos capazes de fazer do homem esse ser que come o pão ou a papa que lhe põem à frente, esteja este em que estado estiver.
undefined
Feb 26, 2026 • 4h 48min

O cativeiro sem grades. Outra conversa com Rui Lage

“Veio-me à cabeça a imagem do general Garibaldi quando, ao partirem de Roma, disse aos soldados que lhes oferecia sede e calor durante o dia, fome durante a noite e perigo a toda a hora…” Isto serve como impulso se nos viramos para aquele outro lado do qual só recebemos notícias quando algo da ordem da catástrofe nos faz sentir como a realidade é hoje outro nome para o esquecimento. Esses lugares por onde anda a monte, sem prece que o alcance, e a coçar-se contra tudo o deus dos secretos, senhor de vidas inesperadas, que não quadram, não encontram rima neste mundo, mas são contíguas a desertos, serras floridas, e mato agreste, afiados instintos de tanto dar caça a bichos difíceis de explicar, enumerar, armar ciladas aos pássaros, naças aos peixes no mais fundo rio, pescarias ali onde o rio faz d’água uma mansa colheita, e às vezes distraídas num gesto mais largo, a molhar n’água amara, e compelidas a recolher a roxa tarde e breve, depois servem-se da capela abandonada como despensa, usam os santos quebrados para esfacelar a carne. Chamam casa a estes lugares que começam onde se chama campo ao que mais ninguém quis. Tudo saqueado, vendido, traído, tudo roído por uma angústia esfomeada. “Vês o tempo como foge/ que parece que não toca?” Como querem então fazer deste tempo qualquer coisa que se sinta, que de si possa fazer exemplo, deixar algo em conserva, penetrar com um perfume apenas seu esses esforços de memória? “Correm os nossos tempos de maneira,/ Antes no mal parece que estão quedos,/ por mais que mude o sol sua carreira,/ Tantos os males são, tantos os medos,/ Que não há vale cá, não há ribeira,/ Por onde soem já cantares ledos;/ Dos tristes ouvi esses, entretanto/ Dará o céu matéria a melhor canto.”… Há tanto tempo já que não cantamos, e parece até que grão mal adivinhamos. Parece que erram buscando saber o que vão por aí inda dizendo os poetas, mas estes, pior que as silvas, têm só esta estratégia de viverem virados para si mesmos, fazendo o seu, como quem oferece caução, sem levantar ondas, e depois esperar que se insista nesse triste enredo que foi o da eternidade, como se eles disso tivessem notícias mais do que as enfermidades de retardo que nos servem de quotidiano. “O vosso Tejo vai de sangue tinto./ Tal vai o nosso Douro, tal o Lima,/ E vão ainda pior do que te pinto./ Aquele que mais pode não estima/ Entrar por onde quer, saqueia tudo,/ O fogo traz na mão, a maça e a lima./ O dono do curral há-de ser mudo,/ Se não quer, em soltando uma só fala,/ Provar com dano seu, seu aço agudo.” Só vagos ventos sem origem nem nenhuma espécie de sentido andam pelos fundos da língua, a fazer que vivam antigas imagens, muito repetidas, muito usadas para ajudar a despertar fantasmas um pouco mais doces, como o dessa Leanor descalça, que vai pela verdura até à fonte e… “A talha leva pedrada,/ pucarinho de feição,/ sai de cor de limão,/ beatilha soqueixada; cantando de madrugada,/ pisa as flores na verdura:/ Vai fermosa e não segura.” O campo hoje é mais um enredo que o ouvido capta escutando os ecos na sua intimidade ajeitados a modos bravios fazendo por se reproduzirem. “O maravilhoso move-se tão próximo/ das casas sujas e decrépitas…” E o que temos nós ainda de ligação com isto, ainda somos capazes com o nosso peso de assentá-lo em qualquer pegada que faça florescer a verdura? Somos vistos lá onde o tempo se faz outro de tão longe, e temos alguma semelhança muito lavada com esses de olhos castanhos, a tez soleada, a fala cantada de só saber das coisas o recorte emprestado pelo ar. Outros ouvirão falar de um país esquecido, entregue à sua bárbara implosão, num mundo entregue ao desaire de envelhecer, enrijar, ossificar-se sem mais distracção que a própria destruição… Essa é a sua musa, e desperta nele uma intenção terrível, a de um mundo que deita um olhar envilecido a tudo o que de fora só vem para roubar-lhe a paz, incomodá-lo. Eram mentira os idílios, e mesmo desses lendas cheias do unto verboso foi tendo outra impressão… “Um dia vi o amor – era medonho:/ tinha olhos convulsos de anjo bêbado/ e a máscara do ódio.” Os que eram daqui, de tanto se desfazerem contra os trabalhos ordinários que aos demais serviam de ilustração, impulsos para que a lira se entregasse às suas perras entoações, tão fartos de terra, de séculos sentindo os ossos lentamente esmagados contra ela, com vergões e cicatrizes herdadas na pele, e nenhum entusiasmo por esses nomes que a nós nos sabem a mel e cheiram a madressilva. Mal se puderam ver livres de tudo isto, deram cabo dela e de tudo o que lhes lembrasse, nesse crime passional de que fala o Rui Lage. Preferem-lhe tudo o que sirva para enforcar a vista, essas grandes casas, edifícios que fecham a vista, escondem o horizonte, empurram o olhar para longe de todo o céu, fartos-fartos da terra, das infinitas extensões que lhes causavam vertigem pois só viam o imenso trabalho que tudo isso lhes dava. Se nós vamos ao campo em passeio, gozar do prazer de ver a terra presa aos astros, alguns vêm a ígnea tela bárbara de espanto, conhecem os infinitos cansaços de “um povo que vivia a suicidar-se, arando a terra, abrindo a derradeira cama”. Esse povo que hoje nos custa reconhecer como a nossa mais funda tradição, povo para quem o trigo é pão em flor, povo para quem a verdadeira flor era o pão. E é deles sobre nós que sentimos assentarem como uma esparsa maldição esses olhos rasos de um espanto podre, vozes misturadas ao silêncio, um engolir a seco nas serras onde irá a enterrar por estes dias o último pastor, lugares à morte entregues todo-ouvidos. Esta a corografia que se apropriará dos nossos restos, o país das “cabras e carrascos”… “É no teu chão dorido/ Que gasto, em paz, os cascos/ Deu fauno envelhecido…” Escreva-se o requiem, então, sendo certo que de nós nada irá notar-se que não comece ali, que se esboce entre aquela névoa: “A morte/ em flor/ dos camponeses/ tão chegados à terra/ que são folhas/ e ervas de nada/ passa no vento/ e eu julgo ouvir/ ao longe/ nos recessos da névoa/ os animais feridos/ do Início.” Tão poucas páginas daquilo que se resolve antologias fazem ferida como esta. Um pó que soa, um brilho que nos chama para a infinidade dessas noites em que não havia mais que acumular o resíduo de estrelas, vê-lo pairar, como uma essência estranha àquela terra que se fazia sentir com a sua imensidão nos corpos, o peso deles também a decompor-se, sem dar notícia, nesse pouco som enfrentando os currais sem gado que ruíram de pobreza. O sofrimento é a única história, mas desta talvez só o musgo dê, “em seu discurso esquivo de água e indiferença alguma ideia disto”. E, por isso, neste tempo que é sempre depois, só nos resta passar por lá em prosa, para não nos entregarmos a essa inane torpeza de quem canta seja o que for, e se põe a soprar aos pés de um enforcado a ver se o faz balouçar… O enforcado de quem ainda alguns têm muita vergonha… “No gesto suspensivo de um sobreiro,/ o enforcado.// Badalo que ninguém ouve,/ espantalho que ninguém vê,/ suas botas recusam o chão que o rejeitou.// Dele sobra o cajado.” É uma forma de dizer mal disto tudo, outra é lançar um fósforo e rir-se ao vê-los naquela dança dos noticiários, estes que só sabem soletrar o desastre quando o campo, a paisagem deles, surge carbonizado. Quando já não é possível trocar coisa nenhuma por nada que valha. Um fim muito claro, muito fácil de entender, traduzindo em cinzas aquilo que de outro modo não era senão “um pó que nem se palpa/ na peneira do mundo”. E de toda aquela história resta o quê? Além da dúvida de um tempo incerto, sem ciclos, sem estações sequer, os campos tão sós… “Tão longe/ dos homens, as largas plantações, ermos/ sem lar, sem fumos, sequer sem espectros/ dos antigos habitantes vivos.” Aos poucos o bucolismo já não aguenta canto seja de que espécie for, morrem as espécies e só se gera já “crias das bestas e dos homens”, um hálito desolador e “oposto ao antigo sopro do Génesis; que gera/ criaturas como se meramente simulasse/ a vida. E a paisagem torna-se aparência,/ semente simulacro e armadilha”. Teremos, então, de nos contar não tanto com os resíduos de estrelas, que já quase não se vêem, mas com os resíduos do campo: “É o oco interior de alguns/ quintais. O bailado surdo/ e brusco das asas/ da galinha./ A caleira podre aonde/ chora um pingo/ – o derradeiro.// É o mundo minúsculo/ dos canteiros; a vida/ nos degraus da planta; a sesta/ de uma gata que por acaso/ insiste em ser novelo.// É este chão cinzento./ A carne entumescida das paredes./ As espinhas reunidas/ do que foi um peixe.// E as armas toscas de matar/ o tempo: colheres, comida, insectos que tentam/ (ao menos) um mundo/ irrequieto./ É a noite que tem as mãos/ suspensas sobre um alguidar/aonde bóia o dia/ pequeno/ de todas as crianças.// Em certas casas constroem-se/ filhos: a música suave/ que se ouve nas camas./ Resíduos da canção/ a única/ que este povo/ ainda sabe/ e canta.” E com este balanço todo que levamos, colhido na mais recente antologia da poesia portuguesa que nos ofereceu Rui Lage, aquela que reza sobre os campos afinal tão infelizes que foram mantidos até meados do século passado num epílogo do Neolítico, parece que deste lado já estamos safos. Mas, entretanto, se a natureza só é vista em trânsito, cada vez mais embaraçada, a vida cedeu toda ela a um comércio passageiro, e se antes Deus se pagava com o seu próprio dinheiro (lombarda, vinho, feijão-verde e batata nova entre outras espécies), agora parece que a própria vida lírica está inteiramente nos velhos, os que tendo memória de outro mundo, estão invadidos de um infinita suspeita, e tossem, conspiram contra este com uma militância certamente desencantada, mas talvez já só haja algum encanto em ser contra. “Sempre se busca alguma espécie de/ mortal eternidade e a escolha/ da terra é a melhor// forma de amar um tempo destinado/ a mostrar que a linguagem por mais/ ninguém usada// como poesia/ o mortal corpo de quem/ a usou há-de por fim dilacerar”. De resto, que resta? Talvez já só esse resíduo de alvoroço, andar para trás e recompor com toda a dificuldade uma pequena porção de toda aquela dor, emocionar-se diante de algo como um arado, que hoje adquire as feições de um passado remoto, mais parecendo o seu esqueleto. Contra a tecnologia toda que se alimenta de nós, espantar-se diante desse ser já sem mundo… “A mecânica do arado é rudimentar,/ clarividente e sóbria. Nada tem/ em demasia: o que a função requer/ e nada mais.// No perfil eficiente do arado/ há qualquer coisa de navalha, qualquer coisa/ de falo em riste, em transe de fecundar.// de facto, noutros tempos,/ era o arado que rasgava a terra,/ fazia dela um ventre aconchegado –/ cenário certo para o deflagrar da vida/ que vai dentro das sementes.// isto foi no tempo em que havia agricultura/ nos gestos quotidianos dos homens/ e das mulheres.” Agora, o campo na linguagem parece também ele algo que se trafica na sua versão transgénica. Vemos aquele talento para combinar os termos e favorecer um apelo rústico, na poesia como na gastronomia ou nos empreendimentos de turismo-rural… Os poemas dos nossos neo-bucólicos, estão cheios de tojo, restolho e urze, giestas, estalidos, de folhas secas, água a correr, das vozes distantes que chamam dos quintais, e das “casinhas/ com papás, vovós e manos, talvez/ com uma sentida perda/ de um talher à mesa e uma/ horta, couves, alfaces, a doméstica/ economia dos quintalórios/ com um cão cativo a ladrar/ à sina e à honestidade das batatas/ que as mães ou avós ainda esmagam/ na sopa com uns pingos de azeite e/ enfado. Pequeno país do/ gasóleo e futebol, memórias/ de mercados e feiras buliçosas,/ de escolinhas rústicas, agora desertas,/ com a cruz e os presidentes na parede,/ pequeno país de bravia/ palavra, sofrida crueza/ de mato ardido e estrumes, sucatas,/ detritos, o hábito endurecido dos/ pequenos holocaustos/ diários.” E para que mais queremos o espaço, a terra, o país propriamente, esse que serve de luxo de passagem, com todas essas aldeias com abismos e alguma ribeira ao fundo. Carbonizadas aldeias que parece que se deitaram para sempre, e estão por aí como ruínas de embalar, “como se nenhum de nós conseguisse entrar nesse obscuro mundo de leis e direcções invisíveis”. E olhamos para tudo isso e aqueles que lhe escaparam de algum modo talvez se sintam como se reconfortados, como se não pudesse mesmo haver volta, e não quisessem daquele mundo outra coisa além desse “mecanismo triste/ movendo a boca breve”. E o fogo talvez seja a última honestidade de que somos capazes. Talvez, de algum modo, nós sejamos toda a destruição que sonharam e convocaram essas tantas gerações que ali no campo “nasciam, penavam e pereciam no anonimato e no isolamento mais cru”, como nos diz Rui Lage. “A luta pelo pão de cada dia exauria a força vital, conduzida para o braço que fazia descer a enxada e o mangual, que pilotava o arado, que cegava as espigas no braseiro do estio e tocava o gado pelos montes. Do berço à cova, a existência do camponês compunha-se de agruras e privações inumeráveis. Ninguém disse tal condição em verso tão cortante quanto Gil Vicente, pela voz do lavrador da Barca do Purgatório (1518): ‘Sempre é morto quem do arado/ há-de viver’. Afinal, nesse auto medial da trilogia das barcas, o Lavrador anuncia-se ao Anjo não como debutante da morte, mas como seu veterano: ‘Da morte venho eu cansado’. Séculos a fio, o adeus aos campos infelizes foi um gesto vedado. A aldeia fazia as vezes de um cativeiro sem grades.”
undefined
Feb 21, 2026 • 4h 47min

Lavar as mãos com os talhantes. Uma conversa com Maria Leonor Figueiredo

Em tempos que talvez nem possam ser outra coisa senão uma pura efabulação, um desvio, uma desordem dessas para as quais nos viramos quando os sonhos se põem a lutar contra o mundo, chegávamos a um desses textos onde parecia que o intuito, todo o esforço em que alguém se empenhou, passava por “escrever páginas e páginas, enchê-las de pedras, de erva, de floresta, de céus, de movimentos das pessoas na rua, de vozes, de casas, do passado, do hoje, de quadros, de estátuas, de rios e de ondas e de copos e de frascos e de gesso branco no meu ateliê e de nuvens, criança deitada na liberdade…” (Alberto Giacometti). Seria um modo de um tipo vestir o mundo como uma segunda pele, resvalar consistentemente entre as coisas, ser de tal modo substantivo que deixava de se considerar um indivíduo. A solidão estava dispersa, absorta. Mas agora que os poetas também se consideram personagens essenciais da beleza publicitária, talvez até mais no momento em que se julgam separados da restante massa de gente, apenas vinculados a uma suposta autonomia das formas artísticas, regulando-se por outras leis num mundo que se encontra em todos os seus aspectos prostituído, é bom lembrar aquilo que notou Barthes, vincando como toda a publicidade dos produtos de beleza se baseia numa espécie de representação épica da intimidade. Num tempo em que os indivíduos se vêem transformados em seres abstractos, o modo como cada um enfatiza a sua realidade íntima, engrandecendo-a para costurar a mitologia patética de si mesmo, é assim que o discurso consegue alcançar a superfície, andar a par dessa superfície viva que é a pele, onde se organizam as miragens galopantes deste tempo, um discurso inteiramente absorvido pelas aparências, por fazer funcionar essa ordem de representações. Seres que são coisas, mas sem qualquer substância. Talvez por isso, naquele breve romance com esse título, Perec diz-nos que o inimigo passou a ser invisível… “Ou melhor, estava neles, tinha-os apodrecido, gangrenado, destruído. Eram os tansos da história. Pequenos seres dóceis, reflexos fiéis de um mundo que escarnecia deles. Estavam enterrados até ao pescoço num bolo de que nunca teriam mais do que migalhas.” Não damos já com esse orgulho dos monstros, que caíam nas zonas mais inesperadas “para revelar a entristecidos burgueses que a sua vida de todos os dias tem de raspão assassinos sedutores, ardilosamente guindados até ao seu sono, que eles atravessam por uma qualquer escada de serviço que não rangeu, armada em cúmplice” (Genet), e isto de modo a fazer explodir de aurora as sugestões dos seus crimes, como segredos entre os quais a língua se recompõe e parece respirar de novo, fazendo-se entender por gestos de tal modo vivos, e encarniçados, que parecem a um tempo absurdamente espontâneos e longamente premeditados. A partir de um certo momento o mal é a única forma de clareza que nos resta, e tem do seu lado toda a razão, toda essa razão que foi votada a uma existência clandestina por aqueles que quiseram livrar-se das suas próprias consciências. Bataille diz-nos que o interesse da obra de Genet não se deve à sua força poética, mas ao ensinamento que resulta das suas fraquezas. “Existe nos escritos de Genet qualquer coisa de frágil, de frio, de friável, que não detém necessariamente a admiração, mas que suspende a harmonia. A harmonia, o próprio Genet a recusaria, se por um erro indefensável lha quiséssemos aplicar. Esta comunicação que se esquiva, quando o jogo literário faz dela a exigência, pode deixar uma sensação de fingimento, e pouco importa se o sentimento de uma falta nos reenvia à consciência da fulguração que é a comunicação autêntica. Na depressão, resultante destas trocas insuficientes, em que se mantém uma divisória embaciada que nos separa, leitores, daquele autor, tenho a seguinte certeza: a humanidade não é feita de seres isolados, mas de uma comunicação entre eles; jamais nos damos, nem que seja a nós próprios, senão numa rede de comunicação com os outros: estamos mergulhados na comunicação, encontramo-nos reduzidos a essa comunicação incessante da qual, mesmo no fundo da solidão sentimos a ausência, enquanto sugestão de múltiplas possibilidades, como a espera de um momento em que ela se resolve num grito que outros ouvem. Porque a existência humana apenas é em nós, nesses pontos em que periodicamente se estabelece, linguagem gritada, espasmo cruel, riso louco, onde a harmonia nasce de uma consciência enfim partilhada da impenetrabilidade de nós mesmos e do mundo.” E se algum dos ditos ‘poetas’ nos segue, convinha que fixasse pelo menos isto, para nunca o esquecer: “jamais nos damos, nem que seja a nós próprios, senão numa rede de comunicação com os outros…, jamais nos damos, nem que seja a nós próprios, senão numa rede de comunicação com os outros”. Mas, hoje, tudo parece invertido, como se submetido a uma radiância de astros de luto, de tal modo que mesmo o desejo e o prazer estão novamente inscritos no quadro das formas de profanação e degradação íntima, por todo o lado vemos essa pressão de uma moral que se impõe em todos os aspectos da vida e leva a que as relações sexuais sejam “tematizadas como práticas altamente problemáticas, traumatizantes, das quais se arrisca sempre, ao aventurar-se nelas, sair-se ferido e, portanto, em relação às quais seria preciso estabelecer os processos necessários para poder obter uma reparação” (Geoffroy de Lagasnerie). Neste episódio entrelaçámos uma série de fios das conversas que vimos mantendo, e contámos com os impulsos e as sugestões de Maria Leonor Figueiredo, que além de ter desenvolvido estudos no campo literário e artístico, mantém desde há muito um compromisso com as lutas políticas deste tempo, e assinou na rede anticapitalista um conjunto de intervenções importantes sobre tantos destes temas. Em “a nova (des)ordem sexual: consentimento, trauma e identidade”, refere que, se falar mais sobre trauma trouxe conquistas inegáveis, e deu legitimidade a experiências antes silenciadas, criando novas formas de reconhecimento, por outro lado, também trouxe uma armadilha, que se prende com a transformação do trauma em identidade política. “A centralidade do trauma é também sintoma de uma época que transformou o sofrimento em capital simbólico e, portanto, em poder. Neste contexto, o espaço político tende a organizar-se em torno da competição por reconhecimento individual. O trauma deixa de ser uma experiência que exige transformação colectiva e passa a ser um selo de autenticidade.” Neste momento parece decisivo assinalar que, num esforço para compreender a metamorfose contemporânea das questões sexuais, não podemos perder de vista como, até há algumas décadas, esteve em campo uma forma de pensar a sexualidade como força de desestabilização, como energia capaz de corroer instituições, códigos e hierarquias. Em Barthes, o amor aparecia como um discurso marginal, uma fala que não encontrava lugar na linguagem dominante, e em Foucault, a sexualidade era inseparável das redes de poder que a produzem, classificam e administram, mas, depois da orgia, Baudrillard foi dos primeiros a dar-se conta de que o desejo começava já a dissolver-se numa cada vez mais acelerada e indiferente circulação de signos. O recuo actual não consiste, como tantas vezes se repete, num simples retorno à moral conservadora clássica, a um reconvir do puritanismo. O que se verifica é algo mais subtil: uma transformação da própria lógica da libertação sexual em dispositivo de controlo. A partir dos anos 60 e 70, a esquerda ocidental assumiu a descriminalização, a despatologização, a ampliação dos direitos sexuais como parte integrante do seu horizonte emancipatório. O combate contra a repressão jurídica e médica — contra a polícia dos corpos, contra o tribunal das perversões — era inseparável de uma crítica mais ampla ao capitalismo disciplinar. Mas, como mostrou Foucault, a sexualidade nunca foi apenas aquilo que o poder reprime, mas passava também por aquilo que o poder produz, organiza, incentiva a confessar. O paradoxo instala-se quando a energia crítica que denunciava a vigilância se converte ela própria em instância vigilante. A esquerda, que outrora suspeitava das categorias fixas e das identidades rígidas, passou a investir numa taxonomia minuciosa das posições subjectivas, numa ontologia de micro-identidades que exigem reconhecimento permanente. O gesto que visava libertar o desejo de normas opressivas transformou-se, assim, num gesto de reinscrição normativa: o comportamento desviante deixa de ser perseguido em nome da moral religiosa ou familiar, mas passa a sê-lo em nome de uma moral da protecção, da segurança, do dano potencial. A linguagem do pecado vê-se substituída pela linguagem do trauma e a figura do pecador pela do agressor, enquanto a denúncia pública, a exclusão simbólica, a penalização social, passam a engendrar uma nova forma de recriminação e regulação punitiva. Não se trata de negar a existência real de abusos ou violências, mas de observar como o campo sexual, que fora pensado como laboratório de liberdade, se converteu em campo privilegiado de policiamento discursivo. E se a suspeita generalizada se instala como norma, a ambiguidade, que foi sempre constitutiva do desejo e da busca pelo prazer, bem como o jogo de sedução, que sempre comportou risco e assimetria, são submetidos a protocolos quase administrativos. Neste ponto, Baudrillard ajuda-nos a compreender esta mutação, notando como a sexualidade contemporânea não tem sido tanto reprimida como hiperexposta, saturada de imagens, convertida em espectáculo permanente. A pornografia deixa de ser marginal e infiltra-se na publicidade, na moda, na política. O erotismo, que supõe distância, espera, segredo, é absorvido pela transparência obscena de uma visibilidade total. Ora, quanto mais visível se torna o sexo, mais rarefeito se torna o desejo. A proliferação de signos sexuais não intensifica a experiência, mas, pelo contrário, neutraliza-a. A esquerda, que deveria ter articulado uma crítica a esta mercantilização integral, preferiu muitas vezes alinhar com uma ética da exposição e da denúncia que coincide, paradoxalmente, com a lógica capitalista da transparência e da gestão de riscos. Se tudo deve ser explicitado, nomeado, regulado, é porque tudo deve ser integrado num sistema de cálculo. A sexualidade, que outrora escapava à contabilidade, passa a ser quantificada em consentimentos, protocolos, declarações prévias. E se ainda quisermos falar de amor, se nos atrevermos a isso, podemos virar-nos para Erich Fromm, que nos desafiou a pensar o amor como arte, sublinhando como este sentimento, guindado a uma razão idealizadora, implica desde logo sair do narcisismo, reconhecer a alteridade irredutível do outro. Ora, o que se observa hoje é uma derrota dessa dimensão exigente: sacrificado à lógica do consumo, o amor vende seja o que for, adapta-se, estende-se como justificação para que sejam reinvindicados todos os caprichos e apetites. O amor que foi sempre difícil, hoje conta com a conveniência e o infinito desdobramento das aplicações de encontros, algoritmos de compatibilidade, mercados de afinidades, beneficiando dos modelos preditivos para nos proteger dos nossos erros e fornecer uma escolha optimizada. E, com isto, o outro surge já como mero elemento de validação, como aquele ser-espelhar que deve confirmar, consolidar a narrativa que temos sobre nós próprios. A ideia de ser transformado pelo outro, de ser compelido a um radical desvio face a si mesmo, e ao contexto, esse perigo ou vertigem já nem se colocam. Nos seus fragmentos sobre o discurso amoroso, Barthes mostrava como o amante fala numa língua minoritária, desajustada, vulnerável. Hoje, essa vulnerabilidade é frequentemente lida como fraqueza, dependência, falha de autonomia. A cultura contemporânea exalta a auto-suficiência, a gestão emocional, o empoderamento individual. O amor, que implica risco de perda e exposição ao sofrimento, torna-se ameaça à integridade narcísica, sendo de preferir a circulação incessante de experiências breves, intercambiáveis, as dinâmicas poliamorosas, onde a substituição rápida protege contra o investimento profundo. Com tudo isto, o puritanismo contemporâneo não se funda já na proibição do prazer, mas na sua gestão e programação até dissolver o desejo pelo outro e focalizar cada vez mais na relação que o indivíduo mantém consigo mesmo, na sua capacidade de satisfazer as suas projecções e de se auto-validar. A sexualidade já não pode, assim, representar qualquer efeito transgressivo, uma vez que passou a estar pautada pela proliferação jurídica. Assim, os aparelhos de vigilância conseguem delimitar o aceitável, estigmatizar o excesso, sancionar o desvio. Ao reivindicar protecção absoluta, segurança total, reconhecimento permanente, temos vindo a permitir o reforço de uma ordem normativa infinitamente minudente, em que cada relação é enquadrada de antemão reconhecendo um potencial litígio, tomando-se cada gesto como susceptível de ser entendido como uma agressão, e devendo estar submetido ao escrutínio moral público. Aos poucos, o desejo retrai-se ou converte-se em cálculo, preferindo-se cada vez mais o semelhante, o compatível, o previsível. O outro é convocado para legitimar uma imagem de si que já está pronta. Entre o puritanismo progressista e o hedonismo administrado, o amor torna-se ele mesmo a fachada para uma indústria de produtos culturais e experiências programadas. E a esquerda, ao abandonar a crítica radical das formas de poder que atravessam o desejo, assiste e promove esta lógica de controlo que domina no mesmo sentido todo o espectro político.
undefined
Feb 13, 2026 • 3h 27min

A central de camionagem da literatura. Uma conversa com Inês Viegas Oliveira e Mariano Tomasovic Ribeiro

Depois de milénios em que a invenção era cantada, os corpos se desdobravam e as formas de beleza estavam ligadas a um prazer e gozo gestuais, em que o ritmo dos relatos e das lendas estava submetido, não apenas à intensidade do que a imaginação capturava ou punha à solta, mas também ao corpo no seu modo de se balançar na simetria dos pés e dos braços aquando da proferição da palavra, de todo um engenho para gerar embalo e dar força aos rituais da rememoração, desde há uns séculos esses comportamentos orais foram-se perdendo, e isto na mesma medida em que, “à pressa, veloz, a tradição do livro, muito mais breve e quase recente, impôs a própria autonomia como concorrente”, diz-nos Pascal Quignard. E logo adianta que “a sua individualização progressiva é tão estranha quanto a que extraiu aos poucos a individualidade singular de um homem – inquieta e ciumenta desse sentimento de singularidade – da individualidade mais específica, mais nitidamente agrupada, em que tomou forma”. “Ainda não se insistiu o suficiente sobre este facto: o que pontua o texto nitidamente individualizado – e que dirige por outro lado a invenção relativamente tardia dos sinais de pontuação – acompanha essa espécie de progressão da vergonha do corpo e já não o ardor ou a urgência da exteriorização.” Assim, a cultura livresca está ligada a um certo acanhamento, a um ensimesmamento, a uma pressão interiorizadora que, muitas vezes, torna os literatos um tanto ineptos para uma convivência e capacidade de expansão dos seus entusiasmos, de serem os cicerones dos seus mundos interiores. Não é de estranhar que a própria língua se tenha reforçado na abstracção categorial das suas estruturas, construindo modos de recriação cada vez mais desvinculados do plano de participação ou enredamento colectivo. Não é de estranhar, por isso, esta sensação de que algo de profundo se quebrou, se inverteu. Se a literatura foi um suporte dos audaciosos gestos praticados em comum, hoje, tantos pressentem como a maioria dos textos não inventam verdadeiramente saídas face à narcose solipsista contemporânea. Cada ser deve fornecer insistentemente as provas da sua existência, e tornamo-nos, assim, os nossos próprios publicitários porque já não encontramos esse apoio nas grandes narrativas, nas ficções que nos irmanavam, nesse fundo conspirativo que animava certos grupos. O problema é que, como assinalou Georges Braque, “as provas cansam a verdade”. Às tantas, de tanto insistirmos na representação cada vez mais enfática dos dramas que apenas nos situam face à nossa identidade, o vigor existencial esvazia-se. Daí esta angústia que anda à solta, em que cada indivíduo parece empenhado em coagir os demais a reconhecerem a sua importância, o seu protagonismo ou valor, de modo a reforçar para si mesmo a sensação de pertencer ao mundo, de estar imerso nele. Todos estão, de algum modo, industriados para organizarem à sua volta algum circo, uma agência de eventos, uma incessante campanha eleitoral. A literatura cada vez menos aponta no sentido oposto, para que cada um se disponha à superação da existência individual, essa a que chamamos experiência da poesia e das artes, que procurava sempre guardar uma memória de esforços de alegria, mesmo em contexto de luta. E, antes de mais, quando hoje falamos de textos literários, devemos começar por salientar a falta de satisfação, aquela busca de prazer na leitura que a maior parte das vezes sai inteiramente gorada. Não se sente grande urgência nem necessidade nos textos que nos chegam, e apenas somos levados a admirar o talento particular para a vigarice deste ou daquele sujeito que fazem por convencer-nos da qualidade técnica com que vêm bulindo a sua intriga. De resto, cedo se mostram podres as esperanças nutridas por seres que vivem afeitos a um tempo arrasado pela base, no elemento de sentido de onde tudo parte: a linguagem. Com o prevalecer de enredos culturais voltados para a representação de si, para que cada indivíduo se entregue a uma competição pela evidência, por obter avanços no jogo do estatuto, com a pressão de um quadro em que todos sonham com o favor da vedetarização, tudo se volve um mero pretexto, todos os valores são apenas máscaras. Industriados para manifestações que não manifestam nada, recaímos na condição de monstros sem interioridade, como se estivéssemos vestidos do avesso. Assim, poderíamos subverter a noção que defende Mabel Moraña no livro “O Monstro como máquina de guerra” – “o corpo monstruoso é aquele que foi progressivamente despojado da sua condição de sujeito até se converter num resto administrável, um corpo disponível para a marca, o castigo ou a eliminação, sem que esse gesto produza uma interrupção significativa da ordem social” –, e pensar como a nossa sociedade nos vincula a projecções impossíveis, a um desolador enredo em que cada um compete para fixar imagens falsas de si mesmo, enquanto se vai desfigurando intimamente. Neste pacto à Dorian Gray, se julgamos conquistar um certo estatuto, na sombra da imagem projectada, no verso dessa ridícula vedeta que cada um representa para os outros, emergem esses seres que nós próprios escondemos e humilhamos. Neste episódio, tivemos connosco o casal responsável pela revista e agora editora Limoeiro Real. Hospedeiros de monstros à antiga, esses que preferem optar pela deserção das lógicas competitivas que tomaram conta do campo das artes e da literatura, preferindo trabalhar a partir do resíduo, do inassimilável. Em vez de se apostar nas figuras que produzem uma estranheza para serem integradas no panteão dos casos dignos de estudo, há ainda essa vida que faz a sua festa no escuro. É um princípio de rejeição das dinâmicas de afirmação a qualquer custo, de modo a ser possível regressar ao ponto cego do conhecimento, aquele espaço que se permite esquecer de si, libertando uma temporalidade diversa e resistindo a ser completamente entendido.
undefined
Feb 7, 2026 • 3h 43min

Faz todo o mal que puderes e baza. Uma conversa com Eduardo Brito

No ano da sua morte, 1988, António José Forte lembrava, numa entrevista que deu a Ernesto Sampaio para o “Diário de Lisboa”, a frase que por aqueles dias ainda podia ler-se num muro da Avenida de Berna: “Não vos inquieteis, é a realidade que se engana”. Tinha 57 anos feitos naquele mês de Fevereiro, dava-se como vivo a pouco mais de nove meses do fim, e garantia que não se inquietava. Tinha a confiança daqueles dois olhos grandes, que sabiam ler bem como só poucos alguma vez foram capazes. E não se inquietava porque há muito se apercebera de que a realidade não era senão outra aparência, um acordo de bestas que o poeta deve repudiar. Por isso mesmo, logo na sua primeira intervenção escrita – “Quase 3 Discursos Quase Veementes” –, no segundo número da revista “Pirâmide”, em Junho de 1959, vincava: “Não estranheis os sinais, não estranheis este povo que oculta a cabeça nas entranhas dos mortos. Fazei todo o mal que puderdes e passai depressa.” Hoje ainda vamos falando muito de realidade, das suas espécies ou diferentes níveis, mas isto não passa há muito de uma forma de jactância e soberba, pois há muito que vamos abrindo mão desses acentos mais agudos ou extremos que procuram engrenar aquela capacidade de nos devolver ao assombro inaugural dos efeitos de nomeação. Num mundo cada vez mais virtual, a pergunta que Baudrillard ia fazendo é: haverá um além do virtual? A gramática e o léxico deixaram de ser uma membrana viva e há muito se foram cristalizando a ponto de impedirem a intervenção de novas formas de sensibilidade, assim, e através da frequência dos clichés, dos símiles mecânicos e dos automatismos, condenamo-nos a um registo cada vez mais esclerosado desse plano onde os nossos sentidos e alcance se exprimem. Para nos servirmos da articulação de Steiner, tornamo-nos prisioneiros de um traçado linguístico que se volve cada vez mais inerte, emurchecido, incapaz de desposar a paisagem cambiante dos factos, servindo apenas para formalizar as reacções humanas ao invés de as estimular. Assim, na senda de Kraus, também aquele crítico literário indagou sobre a possibilidade de a língua recair num embolorecimento, sobrecarregando-se de uma fraseologia hierática e imutável, deixando de assegurar um modelo disponível e gerador de realidade. “As palavras, esses guardiões do sentido, não são imortais, do mesmo modo que não são também invulneráveis", escrevia Adamov nos seus cadernos, em 1938. Embora algumas vão sobrevivendo, outras são atingidas de um modo incurável. Quando a guerra rebentou, ele acrescentava: “Gastas, transparentes, corroídas, as palavras tornaram-se cadáveres de palavras, palavras-fantasma; mascamo-las, regurgitamos o seu som, sem convicção, entre os maxilares.” Há muito que Kraus havia pressagiado uma “era glacial para o espírito”, sendo que, para ele “o verdadeiro fim do mundo é o aniquilamento do espírito”. Em seu entender, o acto adâmico da nomeação tinha-se constituído por fidelidade a uma origem essencial em virtude da qual natureza e linguagem se entreteciam para constituir um livro da criação. E era em atenção a esta dignidade ontológica outorgada por ele à linguagem, que Kraus entendia como ao embrutecê-la era a própria vida que se embrutecia. Por isso dedicou todos os seus esforços a preservar a harmonia da palavra enquanto combate moral. Não concebia separação alguma entre o que um homem é e o que diz, nem entre o que diz e a sua forma de o dizer: se alguém pecasse contra a lei cristalizada na linguagem, pecava contra a verdade. Para ele, todo o erro transporta uma culpa: “a má arte e a vida degradada são espelhos uma da outra e comprovam uma identidade atroz”. Em seu entender, por efeito dos rituais que diariamente vulgarizam a linguagem, e sobretudo por acção da imprensa, o que passara a determinar o tempo presente eram os clichés, os quais trabalhavam já autonomamente. Assim, devia ser assumida pelos homens de espírito a tarefa sagrada de cuidar e proteger as palavras atingidas pela doença, procurando restaurar uma certa pureza originária, uma precisão etimológica. Desde o primeiro número de A Torcha (Die Fackel), o seu anti-jornal, Kraus dispôs-se a confrontar a realidade da sua época com uma “lei de fogo”, produzindo uma desesperada antítese a esse tempo presente consumido pelos “átomos da trivialidade” e que tanto o repugnava. Sabendo que toda a letra se pode transformar em catástrofe, ele quis submergir-se no “pântano da fraseologia” de modo a levar a cabo a sua dissecação. Steiner reforça a ideia de que a linguagem é o principal aparelho de apreensão da realidade, e nota como “no Livro de Isaías, a gramática dos profetas dá corpo a um profundo escândalo metafísico – a intervenção do tempo futuro que expande a linguagem no tempo”. Por sua vez, diz-nos ele, “a obra de Tucídides é habitada por uma descoberta contrária – Tucídides é o primeiro a compreender bem que o passado é uma construção linguística, que a única garantia da história é o tempo passado dos versos. A vivacidade prodigiosa dos diálogos platónicos, a adopção da dialéctica como método de investigação intelectual, é inseparável da descoberta de que as palavras, uma vez postas à prova, e podendo afrontar-se numa batalha ou articular-se numa dança, abrem caminho a novas formas do entendimento.” Por sua vez, Eduardo Brito em “Procura Nada” vem interrogar a estrutura da verdade como ficção, celebrando a teoria da relatividade e, ao mesmo tempo, fornecendo também “uma espécie de loa ao mais elegante tempo verbal, o futur antérieur, que em português tem o nome de futuro composto e perde, na poesia, o que ganha em rigor terminológico: o futuro do verbo auxiliar avoir ou être e o particípio passado do verbo principal, a anterioridade em relação a um momento determinado de algo indeterminado, como se fosse tudo assim tão relativo como o tempo: quando partir, já terei voltado.” Trata-se, portanto, de investigar os processos que nos alertam para a heterogeneidade neste mundo, contra a homogeneização e a uni-dimensionalidade. Corroendo as lógicas unívocas, esta narrativa mostra-se capaz de infectar o próprio decurso da história, como se a vontade fosse capaz de lhe alterar o desfecho, atingindo o sentido de fatalidade que associamos ao passado. A certa altura, e num dos momentos mais instigantes deste livro, Brito fala-nos de alguns velejadores que, em 1968, participaram na mítica regata promovida pelo jornal inglês The Sunday Times. Os oito marinheiros foram desafiados a circum-navegarem o globo, partindo de Inglaterra, e seguindo o caminho que quisessem, desde que o fizessem solitariamente. Se, dos oito, quatro desistiram pouco depois do começo, e um quinto abandonou a prova a meio, por naufrágio, Brito não perde tempo com aquele que ganhou, mas foca-se nos dois que poderiam ter ganhado a corrida, mas que por razões diferentes não o fizeram: o velejador francês Bernard Moitessier e Donald Crowhurst. Este engenheiro eletrotécnico embarcara na prova sem qualquer experiência enquanto navegador, e depois de forjar uma rota que não chegou a percorrer, veio a aportar secretamente o seu trimarã na Argentina, onde deixou passar o tempo que julgou suficiente para ficar em último lugar, acabando por retomar a corrida numa altura em que estava a caminho de se tornar vencedor, mas, receando ser exposto pela sua fraude, acabou por enlouquecer e se suicidar. Quem também ficou cativada por Crowhurst foi a artista visual Tacita Dean, que reconstituiu aquele período final da sua vida, as semanas em que já não sabia onde se encontrava. “Tinha perdido completamente a noção do tempo e desenvolvido uma relação obsessiva com o seu cronómetro avariado, o instrumento que mede o Tempo Médio de Greenwich a bordo. Começou a sofrer de ‘loucura do tempo’, um problema familiar aos marinheiros cuja única forma de localizar a sua posição depende de uma observância rigorosa do tempo. Quando o seu sentido do tempo se distorceu, deixou de ter qualquer ponto de referência na massa mutável do oceano cinzento. Oprimido pela enormidade do seu engano e pela ofensa ao princípio sagrado da verdade — aquilo que acreditava ser o seu ‘Pecado da Ocultação’ — Crowhurst ‘abandonou o jogo’ e tudo indica que se terá lançado ao mar com o seu cronómetro, a apenas algumas centenas de milhas da costa da Grã-Bretanha.” Hoje, muitos de nós estamos também devastados por esta incapacidade de nos situarmos, incapazes de nos reconhecermos nos elementos cada vez mais deslassados e inconstantes da crónica que vamos fazendo, e, por essa razão, estamos a sofrer também os sintomas de uma loucura do tempo. A linguagem adoecida serve-nos cada vez de menos, e se considerarmos, como anota Steiner, que mesmo a história não passa de um acto de discurso, um uso selectivo do tempo passado, e que, sem essa ficção verdadeira da história, sem a animação ininterrupta de um passado escolhido, não passamos de sombras vazias, começa a ficar claro como nos destinamos a uma deriva na massa mutável do oceano cinzento, desses desertos nos quais não somos capazes de nos guiar por nenhum elemento constante. “Os vestígios, como os monumentos e lugares históricos, por mais concretos que sejam”, lembra Steiner, “têm também de ser ‘lidos’, quer dizer, situados num contexto de reconhecimento verbal, a fim de adquirirem uma presença real”… Então, a pergunta que Steiner formula é: “de que realidade palpável dispõe a história fora da linguagem e da nossa crença reflexiva em testemunhos que são de ordem fundamentalmente linguística?” E entre os principais elementos de erosão do sentido, além das pragas, dos vermes e dos incêndios que são capazes de danar parcialmente os arquivos, há ainda a pressão dos regimes totalitário, que trabalham para destruir não apenas esses testemunhos, mas degradar a consciência do passado e até aquilo que nos permite a todo deslocarmo-nos na dimensão temporal, esse livro da criação, essa linguagem que visa a ressonância da construção de um passado.

The AI-powered Podcast Player

Save insights by tapping your headphones, chat with episodes, discover the best highlights - and more!
App store bannerPlay store banner
Get the app