
Enterrados no Jardim A central de camionagem da literatura. Uma conversa com Inês Viegas Oliveira e Mariano Tomasovic Ribeiro
Depois de milénios em que a invenção era cantada, os corpos se desdobravam e as formas de beleza estavam ligadas a um prazer e gozo gestuais, em que o ritmo dos relatos e das lendas estava submetido, não apenas à intensidade do que a imaginação capturava ou punha à solta, mas também ao corpo no seu modo de se balançar na simetria dos pés e dos braços aquando da proferição da palavra, de todo um engenho para gerar embalo e dar força aos rituais da rememoração, desde há uns séculos esses comportamentos orais foram-se perdendo, e isto na mesma medida em que, “à pressa, veloz, a tradição do livro, muito mais breve e quase recente, impôs a própria autonomia como concorrente”, diz-nos Pascal Quignard. E logo adianta que “a sua individualização progressiva é tão estranha quanto a que extraiu aos poucos a individualidade singular de um homem – inquieta e ciumenta desse sentimento de singularidade – da individualidade mais específica, mais nitidamente agrupada, em que tomou forma”. “Ainda não se insistiu o suficiente sobre este facto: o que pontua o texto nitidamente individualizado – e que dirige por outro lado a invenção relativamente tardia dos sinais de pontuação – acompanha essa espécie de progressão da vergonha do corpo e já não o ardor ou a urgência da exteriorização.” Assim, a cultura livresca está ligada a um certo acanhamento, a um ensimesmamento, a uma pressão interiorizadora que, muitas vezes, torna os literatos um tanto ineptos para uma convivência e capacidade de expansão dos seus entusiasmos, de serem os cicerones dos seus mundos interiores. Não é de estranhar que a própria língua se tenha reforçado na abstracção categorial das suas estruturas, construindo modos de recriação cada vez mais desvinculados do plano de participação ou enredamento colectivo. Não é de estranhar, por isso, esta sensação de que algo de profundo se quebrou, se inverteu. Se a literatura foi um suporte dos audaciosos gestos praticados em comum, hoje, tantos pressentem como a maioria dos textos não inventam verdadeiramente saídas face à narcose solipsista contemporânea. Cada ser deve fornecer insistentemente as provas da sua existência, e tornamo-nos, assim, os nossos próprios publicitários porque já não encontramos esse apoio nas grandes narrativas, nas ficções que nos irmanavam, nesse fundo conspirativo que animava certos grupos. O problema é que, como assinalou Georges Braque, “as provas cansam a verdade”. Às tantas, de tanto insistirmos na representação cada vez mais enfática dos dramas que apenas nos situam face à nossa identidade, o vigor existencial esvazia-se. Daí esta angústia que anda à solta, em que cada indivíduo parece empenhado em coagir os demais a reconhecerem a sua importância, o seu protagonismo ou valor, de modo a reforçar para si mesmo a sensação de pertencer ao mundo, de estar imerso nele. Todos estão, de algum modo, industriados para organizarem à sua volta algum circo, uma agência de eventos, uma incessante campanha eleitoral. A literatura cada vez menos aponta no sentido oposto, para que cada um se disponha à superação da existência individual, essa a que chamamos experiência da poesia e das artes, que procurava sempre guardar uma memória de esforços de alegria, mesmo em contexto de luta. E, antes de mais, quando hoje falamos de textos literários, devemos começar por salientar a falta de satisfação, aquela busca de prazer na leitura que a maior parte das vezes sai inteiramente gorada. Não se sente grande urgência nem necessidade nos textos que nos chegam, e apenas somos levados a admirar o talento particular para a vigarice deste ou daquele sujeito que fazem por convencer-nos da qualidade técnica com que vêm bulindo a sua intriga. De resto, cedo se mostram podres as esperanças nutridas por seres que vivem afeitos a um tempo arrasado pela base, no elemento de sentido de onde tudo parte: a linguagem. Com o prevalecer de enredos culturais voltados para a representação de si, para que cada indivíduo se entregue a uma competição pela evidência, por obter avanços no jogo do estatuto, com a pressão de um quadro em que todos sonham com o favor da vedetarização, tudo se volve um mero pretexto, todos os valores são apenas máscaras. Industriados para manifestações que não manifestam nada, recaímos na condição de monstros sem interioridade, como se estivéssemos vestidos do avesso. Assim, poderíamos subverter a noção que defende Mabel Moraña no livro “O Monstro como máquina de guerra” – “o corpo monstruoso é aquele que foi progressivamente despojado da sua condição de sujeito até se converter num resto administrável, um corpo disponível para a marca, o castigo ou a eliminação, sem que esse gesto produza uma interrupção significativa da ordem social” –, e pensar como a nossa sociedade nos vincula a projecções impossíveis, a um desolador enredo em que cada um compete para fixar imagens falsas de si mesmo, enquanto se vai desfigurando intimamente. Neste pacto à Dorian Gray, se julgamos conquistar um certo estatuto, na sombra da imagem projectada, no verso dessa ridícula vedeta que cada um representa para os outros, emergem esses seres que nós próprios escondemos e humilhamos. Neste episódio, tivemos connosco o casal responsável pela revista e agora editora Limoeiro Real. Hospedeiros de monstros à antiga, esses que preferem optar pela deserção das lógicas competitivas que tomaram conta do campo das artes e da literatura, preferindo trabalhar a partir do resíduo, do inassimilável. Em vez de se apostar nas figuras que produzem uma estranheza para serem integradas no panteão dos casos dignos de estudo, há ainda essa vida que faz a sua festa no escuro. É um princípio de rejeição das dinâmicas de afirmação a qualquer custo, de modo a ser possível regressar ao ponto cego do conhecimento, aquele espaço que se permite esquecer de si, libertando uma temporalidade diversa e resistindo a ser completamente entendido.
